
A paisagem da Fazenda Pau d'Alho, na cidade de Campinas, em São Paulo, vai ganhar uma transformação que mistura passado e futuro . Uma das propriedades históricas mais importantes da região, com cerca de 230 anos de trajetória, será integrada a um grande complexo de data centers voltado principalmente ao processamento de inteligência artificial (IA).
O empreendimento será construído às margens da Rodovia Governador Dr. Adhemar Pereira de Barros (SP-340) , a Campinas-Mogi. O projeto é da multinacional Terranova e prevê investimento inicial de US$ 500 milhões. A primeira etapa deve entrar em operação em 2027, enquanto a conclusão de todas as fases está prevista para 2029.
Quando estiver totalmente implantado, o complexo poderá chegar a 400 megawatts (MW) de capacidade. A dimensão ajuda a explicar o tamanho do empreendimento: atualmente, os data centers comissionados no Brasil somam cerca de 1 gigawatt (GW), segundo os dados apresentados pela empresa e pela Associação Brasileira de Data Centers.
Uma história que começou com a cana
Muito antes de abrigar servidores e sistemas de inteligência artificial, a Fazenda Pau d'Alho estava ligada aos primeiros ciclos econômicos de Campinas.
A propriedade foi "fundada" em 1796, quando Antônio Benedito Cerqueira César, avô do ex-senador Francisco Glicério, instalou um engenho de açúcar na área. Naquele período, a região fazia parte da chamada Estrada de Goiás, caminho utilizado por tropeiros e bandeirantes.
Com o passar dos anos, a propriedade foi dividida e passou a ser conhecida como Fazenda Pau d'Alho. O cultivo da cana deu espaço ao café, que transformou Campinas em um dos principais centros produtores do país.
A fase do Barão de Anhumas
No fim do século 19, a fazenda passou para as mãos da família Aranha. Entre os proprietários esteve Manuel Carlos Aranha, o Barão de Anhumas, figura importante para a expansão da cafeicultura no interior paulista.
Em 1885, a propriedade tinha cerca de 300 mil pés de café, além de equipamentos para o processamento do produto. O trabalho era realizado por pessoas escravizadas e, depois da abolição, por colonos.
A produção continuou expressiva nas décadas seguintes. Em 1900, há registro de 14 mil arrobas de café. Em 1914, a propriedade tinha aproximadamente 517 mil pés do grão.
O dinheiro gerado pelo café também ajudou a transformar a própria sede da fazenda.
Casarão tem ligação com Ramos de Azevedo
Foi durante o período de prosperidade do café que a sede da Pau d'Alho ganhou parte da aparência que ainda pode ser reconhecida atualmente.

A ampliação contou com a participação do escritório de Ramos de Azevedo, um dos nomes mais importantes da arquitetura e engenharia paulista. O conjunto recebeu materiais importados e elementos decorativos característicos do período.
O complexo histórico não se resume ao casarão. Também fazem parte do patrimônio a capela, antigos pátios e a senzala.
O conjunto arquitetônico foi tombado pelo município em 2010. Documentos da Prefeitura de Campinas confirmam a proteção do patrimônio e estabelecem que intervenções que possam afetar sua integridade ou visibilidade precisam passar pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc).
Do café ao leite
A história da Pau d'Alho não terminou com o declínio do ciclo cafeeiro.
Em 1948, a área foi vendida à família holandesa Dutilh. A partir daí, a propriedade ganhou outra vocação: a criação de gado holandês e a produção de leite.
A família também trabalhou com melhoramento genético dos animais, utilizando sêmen de touros holandeses e norte-americanos. A fazenda ainda teve plantações de milho, girassol, soja, sorgo e mandioca ao longo do século 20.
Foi mais uma mudança em uma propriedade acostumada a acompanhar as transformações econômicas da região.
Agora, o próximo ciclo é digital
É justamente essa sucessão de atividades que torna a nova etapa da Fazenda Pau d'Alho tão simbólica.
A área vendida pela família Dutilh será incorporada ao empreendimento da Terranova, que pretende transformar o local em um dos grandes polos de processamento de dados do país.
O campus ocupará aproximadamente 944 mil metros quadrados, com cerca de 115 mil metros quadrados de área construída. A primeira fase terá capacidade prevista de 216 MW de TI, com possibilidade de expansão para cerca de 386 MW. A infraestrutura elétrica, por sua vez, poderá chegar futuramente a 1 GW.
A estrutura será utilizada por grandes empresas de tecnologia para serviços de computação em nuvem, inteligência artificial e outras aplicações que exigem grande capacidade de processamento.
O que acontece com o patrimônio histórico?
A construção do data center não significa, segundo a empresa e a Prefeitura, a retirada do conjunto histórico da propriedade.
A Terranova afirma que os imóveis tombados serão preservados e que existem tratativas com o município para a restauração das estruturas históricas.
Além disso, o projeto prevê contrapartidas urbanas e ambientais, como a criação de um parque público, abertura de vias e implantação de uma estação de tratamento de esgoto. Parte significativa da área também será destinada à preservação ambiental.
O próprio planejamento do Polo de Inovação para o Desenvolvimento Sustentável (PIDS), onde o empreendimento será instalado, reconhece o conjunto arquitetônico da Fazenda Pau d'Alho como patrimônio tombado.
Uma fazenda entre passado e futuro
Para pesquisadores que acompanham a história da propriedade, a chegada da tecnologia representa mais um capítulo de uma trajetória marcada por mudanças.
A Pau d'Alho já foi engenho de açúcar, grande produtora de café, criação de gado e espaço de produção agrícola. Também passou por períodos de uso cultural e visitação.
Agora, os campos que acompanharam diferentes momentos da economia de Campinas entram em uma nova fase, ligada à computação e à inteligência artificial.