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Falando em pólvora, qual seria o papel de Campinas na guerra?
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Falando em pólvora, qual seria o papel de Campinas na guerra?

Na última terça-feira (10), durante um evento no Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disparou que quando acaba a saliva "tem que ter pólvora", ao se referir às possíveis conversas sobre a preservação da Amazônia com o presidente norte-americano eleito Joe Biden. 

Tal discurso foi suficiente para que, em poucos minutos, a internet repercutisse o assunto e questionasse a atuação do Exército Brasileiro em um suposto conflito bélico. Mas você sabia que a cidade de Campinas desempenharia um papel importante caso o país entrasse guerra? 

Entre memes e suposições, o ACidade ON Campinas conversou com um especialista em História Militar para entender as funções da cidade em um possível conflito armado. Lembrando que Campinas abriga dois batalhões do Exército - 11ª Brigada de Infantaria Leve e 2º Batalhão Logístico Leve -, além da EsPCEx (Escola Preparatória de Cadetes do Exército), construída em 1944, e a única do país atualmente.  

Segundo o historiador e professor da Unicamp, Pedro Paulo Funari, os batalhões de Campinas, em caso de guerra, atuariam sim. De acordo com ele, tanto a 11ª Brigada de Infantaria Leve quanto o 2º Batalhão Logístico Leve estão em posição estratégicas na rota de São Paulo a Brasília, e disponível para a defesa da principal área econômica do país, a Capital Federal.  

"Por que essas instituições estão em Campinas? O motivo é que, estrategicamente, estão situadas no eixo entre São Paulo e Brasília, portanto ligada por rota terrestre, a via Anhanguera. Sua localização é estratégica porque está próxima tanto do principal centro de industrial do país, na grande São Paulo, quanto das regiões vizinhas que estão em uma distância de até 200km. Essas regiões são Porto de Santos, São José dos Campos que também tem unidade área e Sorocaba, outro centro industrial", destacou Funari.  

"Em seguida, na mesma lógica, isso está ligado ao abastecimento de tropas em Brasília e defesa da Capital. A Capital está defendida pela base área de Anápolis, mas também tropas podem ser deslocadas por vias principais, como é o caso dos batalhões de Campinas. A função estratégica nesse caso é muito importante e em qualquer tipo de conflito bélico que haja entre Brasil e qualquer outro país, seguramente essa unidades militares estariam envolvidas", continuou.  

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E estariam essas unidades preparadas para uma guerra?
"Sim, mas a sua ação depende da capacidade ofensiva inimiga. Se for um ataque de uma superpotência, como os Estados Unidos, seriam alvos fáceis. Já se o ataque vier de uma potência regional, como seria a Bolívia ou o Paraguai, sua atuação seria mais decisiva, pois a capacidade de ataque aéreo inimigo seria bem menor", pontuou o historiador. 

"As forças armadas estão sempre prontas para a guerra, mas para elas uma guerra é sempre um recurso muito extraordinário, nada indica que isso ocorra. Se ocorresse, o país sofreria muito, pois o potencial destrutivo dos Estados Unidos é imenso e a indústria seria atacada, a economia entraria em profunda crise. O caso do Iraque dá uma ideia da tragédia", continuou. 

Campinas poderia se tornar um alvo em caso de guerra?
"Um segundo aspecto importante no que se refere à situação estratégica das tropas que estão em Campinas e sua região é o fato de que nós temos diversos centros de valor estratégico, como é o caso da Unicamp, da PUC, do laboratório Sirius, CPQD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações). Ou seja, há centros de pesquisas públicos que poderiam ser atacados em casos de conflito armado. Essa é uma das motivações da manutenção de tropas por ali. Em suma, sim, são alvos estratégicos para bombardeios aéreos de precisão, à disposição de grandes potências, mas não regionais", salientou.  

Laboratório Sirius é potencial alvo de bombardeios por importância na área da tecnologia (Foto: Divulgação)

Mas há chances de o país entrar em um conflito armado?
"Não parece cenário provável ou mesmo possível. As forças armadas iriam desaconselhar de maneira decisiva as autoridades civis, como o presidente da república, a declarar guerra aos Estados Unidos. Um ataque estadunidense sem provocação militar clara parece remotíssima possibilidade", ressaltou Funari. 

Qual o processo para se declarar guerra contra outro país?
"Uma guerra só pode ser declarada com aprovação do Congresso, tanto nos EUA como no Brasil. No entanto, os conflitos armados nem sempre são precedidos de uma declaração de guerra, em geral não o são. Portanto, o presidente da República, lá e cá, pode, em teoria, ordenar ataques militares sem declaração formal de guerra, já que são os comandantes supremos das forças armadas. Na prática, as forças armadas aconselham como o presidente pode agir. Nos EUA, os ataques sem declaração de guerra são comuns, já que são uma superpotência. Já no Brasil, isso não ocorre há muito tempo, nem declaração de guerra (as últimas foram a Guerra do Paraguai, no século 19 e a entrada do Brasil na guerra contra o Eixo em 1942), e intervenções armadas sem declaração também muito raras, como a expedição à República Dominicana, em 1965, em força auxiliar dos americanos", finalizou.

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