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Campinas bate recorde de eleitas e tem vereadora mais votada
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Campinas bate recorde de eleitas e tem vereadora mais votada

O número de mulheres eleitas neste domingo (15) para a Câmara Municipal bateu recorde em Campinas . Foi a primeira vez que quatro mulheres foram eleitas para mandato no legislativo. Até então, o maior número era de três mulheres- tanto na legislatura de 1980 a 1992, como na de 2005 a 2008.

No último mandato, de 2016 a 2020, havia uma única mulher entre os 33 parlamentares, sendo ela a vereadora Mariana Conti (Psol), que foi reeleita ontem, e teve o maior número de votos entre os vereadores neste ano- marca também nunca antes alcançada por uma mulher.


Mais votada, a vereadora vai abrir a sessão de posse no dia 1º de janeiro, sendo a primeira vez na história de Campinas que uma mulher preside a sessão desde que a Câmara de Campinas foi oficialmente formada em 1797.

Apesar da história de mais de dois séculos, a participação feminina tem apenas 72 anos na Câmara, sendo que somente em 1948 Campinas teve a primeira parlamentar mulher. De lá pra cá, ao todo 15 mulheres já ocuparam o cargo de vereadora. 

ELEITAS  

Além de Mariana, eleita com 10.886 votos, as outras mulheres que agora vão fazer parte do time de vereadores são Guida Calixto (PT), que teve 3.645 votos, Paolla Miguel (PT), que teve 2.728 votos e Débora Palermo (PSC), que teve 1.937 votos.

Reeleita e com recorde de votação, a vereadora Mariana Conti conta que sentiu bastante apoio nas ruas, mas não esperava ser a mais votada da cidade.

"Eu esperava uma votação grande pela sensação das ruas, mas não imaginava ser a mais votada. Fiquei muito feliz, é uma demonstração como a sociedade quer mudança, quer mulheres na política e isso é um reflexo de todas as lutas que temos feito" declarou Mariana, que contou estar honrada sendo a primeira mulher a presidir a sessão de posse na cidade.

Depois de quatro anos sendo a única vereadora e dividindo as cadeiras com outros 32 homens, ela diz estar feliz com a presença de mais mulheres na Casa.

"Eu fiquei muito feliz com a eleição de mais mulheres, porque isso pode fazer toda a diferença na Câmara, traz um caráter de mudança e transformação. A Câmara agora ganha uma nova cara e com isso tem possibilidade de se conectar mais com os interesses da população, porque a falta de representatividade impedia que questões dos nossos interesse fossem pautados", acrescentou.

A segunda mulher mais votada em Campinas, Guida Calixto, declara ter ficado feliz por alcançar a vitória, ainda mais no momento político atual.

"Eu me sinto muito feliz por ter alcançado a vitória nesse contexto de mais mulheres na Câmara, e acho que essa eleição veio acompanhada de um anseio que está presente na sociedade. Houve um avanço em questões conservadoras, machistas, e entendemos que essas vitorias vêm junto a um movimento que luta contra o preconceito, por espaço na política e para garantir direitos" citou.

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Guida afirmou ainda que vai procurar uma aliança entre as outras vereadoras para reforço na atuação por políticas públicas voltadas a mulheres. Tanto ela, como a eleita Paolla Miguel são negras, e ressaltaram a atuação para inclusão na política.

"Campinas ainda é muito conservadora, ainda não conseguimos atingir 50% dos cargos, mas esse é o primeiro passo para mudar a realidade e criar políticas publicas voltadas para as mulheres, mulheres periféricas, negras, e mudar essa cidade. Vimos uma representante mulher ser a mais votada e acho que isso é um sinal que as pessoas estão entendendo a importância da nossa atuação", disse Paola.

A eleita vereadora Débora Palermo também foi procurada pela reportagem, mas não conseguimos o contato.  


Parede com quadro de presidentes da Câmara de Campinas em comparação com parede de vereadoras já eleitas (Foto: Câmara Municipal)

NÚMEROS

Apesar do avanço com número recorde de mulheres no legislativo, a representatividade ainda é pouca considerando que em Campinas, cidade com quase 1,2 milhão de habitantes, as mulheres são a maioria da população.

Segundo um levantamento da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados Estatísticos) divulgado neste ano, as mulheres representam 51,74% da população da cidade, ou seja, são mais de 608 mil. No número de eleitores elas também foram maioria , representando 53% do eleitorado, tendo capacidade para decidir as eleições municipais.

Apesar do avanço também nas candidaturas a prefeitura- que neste ano pela primeira vez teve três mulheres no páreo do maior cargo na cidade, nunca houve uma prefeita na cidade. No atual governo, o comando feminino era em apenas seis das 24 secretarias.

A LUTA POR DIREITOS

Para socióloga Stela Cristina de Godoi, professora da PUC-Campinas, a luta por igualdade na política ainda é intensa no país e nas cidades.

"A disparidade é muito grande. O machismo estrutural que vem de anos deixa uma dívida que não vamos resolver rapidamente, mas o avanço nas candidaturas é um resultado positivo que reflete a conquista de mobilização que os movimentos feministas fazem ao longo de anos. É esse movimento de luta que nos leva a essas conquista", declarou.

Para Stela além de conseguirem ser eleitas, as mulheres também precisam ser ouvidas e respeitadas na política.

"O déficit ainda é violento e a política é um espaço de violência a mulher, quantitativo e qualitativo, porque as mulheres ainda são desrespeitadas e ofendidas na sua atuação. Há um imaginário que tudo referente a um espaço de público, de política, é um espaço mais masculino, que eles seriam mais capazes, e isso está impregnado até na recusa das mulheres ocuparem cargos e quando ocupam não terem liberdade para atuação", afirmou.

A especialista citou o IPP (Índice de Paridade Política) realizado pela ONU (Organização das Nações Unidas), que apontou neste ano o Brasil como em nona posição do ranking de 11 países da América Latina, e que demonstra a falta de políticas interessadas na igualdade de gênero.

"Esse ganho de Campinas é enorme, mas ainda é escandalosa a disparidade. Nós estamos extremamente mau colocados na América Latina, e vemos que nos últimos dois anos houve um desmonte nas políticas para as mulheres, que mostram que não temos ações para fomentar a igualdade. Temos potencial de mudança muito grande, mas além dessa participação cidadã que precisa confiar em outras candidatas, precisamos cobrar estruturas institucionais que fomentem esse aumento", acrescentou.

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