Afastados: profissionais de sade comemoram Natal longe da famlia
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Afastados: profissionais de sade comemoram Natal longe da famlia

Vivendo dez meses privados da presença de amigos e familiares, como forma de segurança e de cuidado, esse ano o Natal de quem trabalha com a saúde será afastado, ao contrário da tradição da data. 

Esse é o caso vivenciado por Sidney Volk da Silva, médico pediatra que atua na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Vera Cruz Hospital e no HC (Hospital de Clínicas) da Unicamp. No afastamento social desde março, e vivendo em Campinas longe da família que vive em São Paulo, a presença do Natal com os familiares será apenas remota.  

"Eu sempre priorizei o Natal como uma festa de família, era habitual nos reunirmos, fazer a festa do Papai Noel, com troca de presentes, ceia. Mas nesse ano não vai acontecer", afirmou.  

Mesmo não estando de plantão no Natal, Sidney declarou que optou por realizar uma ceia apenas ele, a esposa e o filho, evitando contato com o resto da família por segurança.  

"Como eu estou na linha de frente, mesmo que já tive infecção por covid, sabemos das possibilidades de reinfecção e como meus pais são pessoas idosas e com comorbidades, prefiro não arriscar, não ser o vetor disso e evitar que algo que traga peso pros meus ombros" contou, lembrando que já perdeu diversos colegas e amigos pela doença neste ano.  

Mesmo seguro com a decisão, para o médico, a principal dificuldade é ainda o apelo da família pela proximidade. 

"Desde março eu não abraço meus pais. Desde o início da quarentena, uma vez eu fui, mas mesmo assim fiquei de máscara, participando, mas sem interagir e mais distante. Mas eles cobram, minha mãe é uma pessoa muito afetuosa, que sente falta do toque, carinho, e cobra muito, mas enquanto não tiver uma linha de prevenção é difícil arriscar" disse. 

FAMÍLIA POSTIÇA

Para Mayara Costa Lino, fisioterapeuta que atua na UTI do Hospital da PUC, o Natal será compartilhado com outra família - a de pacientes.
Trabalhando no dia 25, ela conta que vai passar a ceia do dia 24 só com o pai e com a mãe, com quem mora junto, mas o almoço será feito com a "família postiça". 

"Passar o Natal longe me dá dor no coração, mas a gente sabe que têm muitos ali que precisam de cuidados, acabamos no hospital sendo família para aqueles que estão sem, e é gratificante. A gente deixa de estar com a nossa família, mas fica com uma segunda" declarou. 

Trabalhando e ainda na linha de frente, Mayara conta que está há meses longe dos familiares, e que a ceia será incomum sem a presença deles. "Normalmente juntava todo mundo, dois irmãos, sobrinhos, vinha parente de fora, e esse ano vai ser restrito" disse. 

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Família de Mayara na ceia do ano passado. (Foto: Arquivo pessoal)


SEGURAR A SAUDADE 

Para a Mayara, a decisão de manter a distância também foi motivada por um aumento no número de casos. Atuando na linha de frente, ela faz um apelo para que quem puder, que consiga segurar um pouco mais a saudade e evitar nesse momento extrapolar já que pode colocar em risco os próprios familiares. 

"Agora acho que é o momento de evitar aglomerações, sentimos e vemos que os casos estão aumentando, e nós da saúde estamos no fundo nos preparando para o pior", desabafou. 

O aumento de casos e a recomendação por uma ceia menor também é recomendada por Sidney. 

"A minha recomendação é de preservar essas pessoas. Não podemos deixar de ressaltar que existem óbitos e casos em outras faixas etárias, outros vírus também causam mortes mas ao se tratar de nossos pais, e familiares, muitos são nitidamente pessoas do grupo de risco, e eu acho que temos que continuar preservando e não está de maneira nenhuma na hora de relaxar" disse. 

PREOCUPAÇÃO COM A FAMÍLIA

A enfermeira Érica Prado trabalha no setor de coronavírus do Hospital da PUC e, assim como os demais profissionais da área, optou por passar a data longe da família. "Meu primeiro plano é só dar uma passadinha na porta de casa, cumprimentar as pessoas, e voltar para a minha casa. A gente decidiu ser dessa forma porque a gente está vivendo uma franca pandemia", relatou. 

Érica conta que além da preocupação com os familiares, especialmente com o pai, outro fator que a impedirá de jantar com eles é o trabalho. Isso porque, no dia 24 ela fará plantão durante o período diurno, e no dia 25, no Natal, o plantão será pela manhã.  

"Mas isso não é a questão mais importante, mas sim a prevenção e transmissão do coronavírus para os meus familiares. Os meus pais pertencem ao grupo de risco, e o que me chama bastante é meu pai porque ele faz hemodiálise, então ele é um grande fator de risco, tem uma saúde bastante fragilizada e comprometida, então eu evito vê-lo ao máximo", destacou. 

ELA, UM COLCHÃO E UMA CAFETEIRA 

A distância da família não é de hoje, já que Érica se mudou de casa logo no início da pandemia, em março, pelo fato de que estava em constante contato com os pacientes da covid-19. A época ela foi morar em um apartamento da família, sozinha e sem mobília. "No meu primeiro mês morando sozinha era só eu, um colchão e uma cafeteira. Algum tempo depois, fui organizando a casa, mobiliando devagar. Mas, há cerca de um mês, eu acabei me mudando de novo porque o apartamento foi vendido, e eu tive que arrumar outro lugar sem ser a casa dos meus pais, porque eu acho que ainda não é seguro", contou. 

A TRADIÇÃO É ESTAR JUNTO

A enfermeira revela que, nesta época do ano, a tradição da família é estar junto. Mas, como o cenário não permite, ela tem matado a saudade com o auxílio de alguns aparelhos eletrônicos.  

"Eu sinceramente sinto falta da minha família todos os dias, a forma como eu organizei para resolver essa questão é fazendo algumas chamadas de vídeo. Minha mãe não tinha o hábito de usar o telefone e ela comprou um celular e aprendeu como fazer as chamadas. A gente de vez em quando conversa, dá risada, brinca, mas realmente sente falta de estar junto", desabafou. 

Neste Natal, ela comenta que os planos da família é organizar uma pequena ceia entre os pais, irmãos e tia - pessoas que já convivem. "É óbvio que isso é bem difícil para mim, me deixa bastante frágil porque eu também queria estar participando desse momento. Mas trabalhando com o coronavírus e vivendo esse momento, eu realmente acredito que seja muito arriscado eu estar próximo deles", argumentou.  

Este ano Érica, Sidney e Mayara passarão o Natal cuidando dos enfermos. Apesar da saudade e vontade de estarem perto daqueles que amam, eles entendem que preservar a vida dos entes queridos é tão importante quanto jantar com eles.

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