Campinas completa um ano do primeiro caso de covid-19
Reprodução: ACidade ON
Campinas completa um ano do primeiro caso de covid-19

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Campinas completa hoje (13) um ano desde o primeiro caso de contaminação pelo coronavírus registrado na cidade. A confirmação foi a de uma estudante de medicina da faculdade São Leopoldo Mandic, que teria se contaminado em uma festa de casamento em outro estado. De lá para cá, foram 73.912 pessoas contaminadas na cidade, sendo que 1.997 perderam suas vidas dados registrados até ontem (veja mais números aqui)

O aniversário da pandemia na cidade ocorre justamente no pior momento da doença no estado e no país. Ontem, São Paulo voltou a bater o recorde diário de mortes causadas pela doença. Foram registradas 521 mortes em todo o estado. Há quatro dias, na última terça-feira (9), São Paulo registrou o recorde anterior, com 517 óbitos. Em Campinas, apenas nesse ano foram 415 mortes que vitimou 239 homens e 176 mulheres (veja mais aqui).

Um ano depois, Campinas sofre com a pressão nos leitos públicos, enfrenta um colapso, registrando hospitais lotados e o grande aumento nos casos de contaminação e internações. Mesmo com constantes recargas em leitos de UTI, a ocupação divulgada ontem (12) era de 100% em leitos municipais. A fila de espera por leitos no SUS municipal era de 100 pessoas, 50 delas precisando de UTI.

Desde a semana passada Campinas está na fase vermelha do Plano São Paulo de flexibilização da quarentena com comércio e serviços fechados e , a partir de segunda-feira, entra em uma fase ainda mais severa, a emergencial. A intenção é diminuir a circulação de pessoas e com isso a taxa de transmissão. Festas e aglomerações clandestinas e o cansaço da população em obedecer às medidas de distanciamento são apontados pelas autoridades como os grandes causadores da nova alta da doença na cidade (leia mais abaixo).  

AS MARCAS  

Mesmo com um ano de enfrentamento, ainda pouco se sabe sobre a doença e todas as formas que ela age e as sequelas que deixa. No entanto, uma coisa é certa: a gravidade das marcas deixadas por ela.  

A técnica de enfermagem Marcela Oliveira é testemunha do quão devastadora a covid-19 pode se mostrar e em tão pouco tempo. No ano passado, Marcela perdeu a mãe, de 68 anos, e a irmã, de 33, pela doença.  

"Eu ainda sofro demais. Foram duas perdas muito trágicas, algo inimaginável. Eu não tive uma despedida, não consegui dar um último abraço. Parece que o momento passou e sempre vai ficar esse buraco, é um vazio muito grande que nada vai preencher" desabafou.  

Trabalhando na área da saúde, Marcela conta que o medo da doença também é um grande companheiro.  

"Desde quando eu perdi minha mãe e minha irmã eu também fiquei isolada e fiquei com muito, muito medo. Qualquer espirro eu achava que fosse covid. Foi passando, mas ainda tudo é muito doloroso e tem sido muito difícil. Nós vemos agora esse aumento descontrolado, vemos profissionais esgotados, setores lotados, é muito triste" relatou.  

VER DE PERTO

As marcas deixadas são lembradas também por aqueles que não perderam familiares, mas que chegaram a se contaminar e ver de perto a intensidade da doença.  

O técnico de enfermagem Gustavo Hernandes Lourenço, de 38 anos, apesar de não fazer parte do grupo de risco e não apresentar doenças prévias, ficou internado por 13 dias após se contaminar. Desse total, durante 12 dias ele ficou na UTI em estado grave.  

"Eu fiquei doente bem no começo da pandemia, não tinha muita informação sobre a doença. Eu fiquei internado na UTI e em uma condição bem grave, e nunca imaginei que essa doença fosse quase tirar minha vida", disse citando que o medo da doença ainda o cerca.  

"Hoje eu continuo trabalhando e tentando não pensar na possibilidade de me infectar novamente. Tomei a vacina e continuo na luta contra esse vírus tão perigoso", contou Gustavo dando um recado direto para aqueles que ainda não acreditam na gravidade do vírus.  

A DURAÇÃO E O AUMENTO DE CASOS

Para a diretora do Devisa (Departamento de Vigilância em Saúde), Andrea Von Zuben, a piora nos casos neste ano veio, após uma sequência de altas nos casos, até chegar ao nível extremo visto atualmente.  

"Quando começou a pandemia, a gente imaginava que teria bastante caso e que seria grave. Mas depois que entrou naquela descida, que a gente achou que ia somente aumentar de novo neste ano, que não teria uma continuidade. No entanto, o que tivemos foram dois meses baixos e depois começou em novembro aumentar e chegou na situação que está hoje, que é muito complicada", afirmou.  

Para Andrea, a piora nos casos tem sido atribuída ao cansaço da população, que parou de se importar com a gravidade da doença.  

"O que a gente mais atribui é o fato da população ter entrado em uma fadiga e cansaço. Diminuiu a percepção de risco, e ficou com impressão de que está tudo bem", disse ela.

Por outro lado, ela também destacou como um dos principais desafios de agora o cansaço dos profissionais da saúde.
"A maior dificuldade hoje claramente é a sobrecarga de trabalho, o cansaço do trabalho. Estamos com duas frentes, de um lado uma pandemia exacerbada, e outra frente trabalhosa que é a vacinação. Então temos que planejar uma campanha gigante e cercada de incertezas", disse Andrea.  

FALTA DE ADESÃO

"O que eu mais observo é a intervenção ineficaz dos nossos governantes, e muita falta de consciência da população em adotar as medidas de precaução, fazer distanciamento, usar máscara, higienizar as mãos. Tem a falta de medidas por um lado, mas a população não tem colaborado. Vemos muitas festas, muito desrespeito e fica difícil controlar nessa circunstância. Pelo jeito vai durar muito mais do que todos esperavam", disse.  

Questionada sobre os altos números na cidade, a diretora do Devisa disse que não acredita que houve falha municipal, mas sim um descumprimento de um acordo que era para ter sido seguido pela população.  

"Não acredito que haja falhas. Acredito que era um pacto com a sociedade, tivemos fases mais duras, mais restritivas, que diminuíram as internações e depois o Plano São Paulo tinha uma abertura com as medidas sendo seguidas. O que pedíamos era o esforço individual preservando o coletivo, o que não aconteceu. Se tivéssemos população seguindo premissas não estaríamos assim", disse.

"A gente pode fazer um lockdown, mas se as pessoas quiserem driblar, nós não conseguimos estar em todo lugar o tempo todo. É questão de conscientização", completou.

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