Atendimento a mulheres vítimas de violência cresce 281% em Campinas.
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Atendimento a mulheres vítimas de violência cresce 281% em Campinas.


O número de mulheres vítimas de violência atendidas pelo Ceamo (Centro de Referência e Apoio à Mulher), em Campinas, aumentou 281% nos dois primeiros meses deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado . O balanço foi divulgado nesta segunda-feira (21) pela Prefeitura. 

Segundo os dados, entre janeiro e fevereiro do ano passado, o Ceamo realizou 95 atendimentos. Já no mesmo período deste ano, foram 362 mulheres atendidas , o que resulta no crescimento de 281%. 

O Ceamo presta atendimento às mulheres em situação de violência de gênero no âmbito doméstico e presta atendimento psicológico, social e orientação jurídica, visando romper o ciclo de violência. 

AUMENTO DA DEMANDA

A média de atendimentos mensais também mostrou grande aumento. Segundo a Prefeitura, No ano de 2020, quando teve início a pandemia de covid-19, a média de atendimentos era de 34 casos por mês. Em 2021, o número cresceu 65,5%, passando a ser 56 casos por mês. Agora, a média é de 181 casos mensais.

Ainda segundo o levantamento, o número de casos atendidos no começo deste ano já representa mais da metade de todos os atendimentos no ano passado. 

"No ano passado, tínhamos uma média de 56 atendimentos mensais. Este ano, a média subiu para 181, um aumento de mais de 220%. A pandemia criou uma demanda reprimida, que está agora chegando a nós", disse a secretária municipal de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos, Vandecleya Moro. 

"Acredito que o aumento seja por demanda reprimida. Agora estamos vendo mais flexibilizações, as mulheres começam a se sentirem mais seguras e muitas que estavam dentro de casa já estão saindo mais, e já imaginávamos que ia acontecer. Teve esse aumento absurdo, mas isso é bom porque o Ceamo é o serviço que acolhe, se a mulher está buscando ajuda é porque quer sair desse ciclo de violência. Quando não nos procuram, a chance de um feminicídio é muito grande", explicou a coordenadora de politicas publicas para mulheres, Grazielle Coutinho Moreno. 

AMPLIAÇÃO DE HORÁRIO

Por causa do aumento no número de atendimentos , a partir desta segunda-feira (21) o Ceamo vai ampliar seu horário de atendimento em três horas . Antes, o serviço, localizado na Avenida Francisco Glicério, 1269 - 6º andar, no Centro de Campinas, atendia das 9h às 17h. Agora, o atendimento passa a funcionar das 8h às 19h, sempre de segunda à sexta-feira.

"A gente tem acolhimento com assistente social, psicóloga, temos orientação jurídica e temos os grupos de apoio, que acontecem duas vezes na semana. Agora com expansão no horário vamos ter grupo noturno. Vamos ampliar porque muitas mulheres que trabalhavam não conseguiam participar", explicou Grazielle. 

Segundo ela os grupos de apoio noturno vão acontecer de terça e quinta das 18h as 19h. A coordenadora ainda citou os serviços oferecidos em casos de gravidade. 

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"Quando vemos que a mulher está em situação de risco, a gente orienta com medida protetiva, e se ela aceita, temos até motorista que fica a disposição para levar à DDM (Delegacia de Defesa daa Mulher). Também temos a casa de abrigo, sigilosa, para quando a mulher está em risco de morte e não tem para onde ir. A casa oferece abrigo para a mulher e para filhos", indicou. 

APOIO NECESSÁRIO

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O serviço atende muitas mulheres que chegaram a correr risco de vida. Esse é o caso de Laís (nome fictício). A vítima, que prefere não se identificar, procurou o serviço após sofrer um atentado do ex-marido no ano passado. 

Antes moradora de Sumaré, ela conta que se mudou para Campinas depois do ex-marido tentar matar ela a facadas.

"Ele não aceitava o fim do relacionamento, sempre foi muito conturbado, com muitas ameaças, agressões. Um dia voltava do trabalho com um colega quando ele nos atacou com faca, por sorte eu consegui fugir, mas levei 19 facadas, fiquei internada, tive que tomar sangue, e o medo ainda é grande", relatou. 

Após se mudar pra Campinas e conviver com a insegurança, ela conta com a ajuda do Ceamo e frequenta reuniões semanais. 

"Desde novembro eles me acompanham, tenho acompanhamento com psicóloga, têm outras mulheres que já passaram por isso e isso ajuda muito. Eu não me sinto segura ainda, porque ele ainda está livre. Me sinto vulnerável, ainda tenho medo de sair na rua, evito lugares, querendo ou não ele ainda está perto", disse a vítima. 

Laís ainda aguarda pela medida protetiva. O agressor está livre e o Ceamo ajuda com o processo judicial. 

"Além do psicológico, eles me ajudaram com processo, disponibilizaram advogada, ajudaram com creche, é bom porque no meio disso tudo temos ainda muita injustiça. A mulher precisa morrer para a Justiça tomar alguma atitude?", lamentou. 


Cintia Marques Quintana, de 38 anos, também é uma das mulheres atendidas da unidade. Ela conta que pediu ajuda após um processo de separação conturbado. 

"Tive um relacionamento durante 13 anos. No começo tinha violência física, depois me acuava, abaixava a cabeça e ele mantinha a violência psicológica, financeira, me humilhava, não me dava acesso dinheiro, perdi meu trabalho por causa dele", conta. 

"Eu tinha determinado que ia me separar, e o Ceamo me ajudou em apoio psicológico. Comecei a ter vida social, porque antes eu não tinha, comecei a cuidar de mim, conhecer mulheres na mesma situação, ver que não era só comigo, e que a atitude dele não era culpa minha". 

Hoje Cintia tem medida protetiva contra o ex-marido e trabalha como artesã. "Estou voltando a ter uma vida, me reerguer", contou.

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