Fila de anos, mais pais que crianças, perfis diferentes: o cenário da adoção em Campinas
Reprodução: ACidade ON
Fila de anos, mais pais que crianças, perfis diferentes: o cenário da adoção em Campinas


Nos últimos três anos, entre 2019 e 2021, 104 crianças tiveram o processo de adoção formalizado pela Vara da Infância de Campinas. Neste ano, até o começo de maio, 11 processos foram finalizados, mas 40 crianças e adolescentes, aptos para adoção, ainda estão em abrigos à espera de uma definição e reinserção em um núcleo familiar. 

O número, que parece ser alto, e de fato é, acaba se "encolhendo" quando se analisa o número de pessoas habilitadas para adoção na cidade. São 263 famílias aptas e ainda na fila de espera para adoção na cidade. 

Ou seja, Em Campinas, o número de pessoas aptas para adotar é seis vezes maior que o de crianças disponíveis para adoção . A conta, que não fecha, traz por trás a espera de anos pela adoção, tanto para famílias habilitadas, quanto para crianças que não tem o "perfil" de preferência. 

Nesta quarta-feira, 25 de maio, é comemorado o Dia Nacional da Adoção. O acidade on Campinas traz os números da adoção na cidade e explica como funciona o longo caminho para pais que buscam por filhos do coração. 

Veja número de adoções formalizadas por ano em Campinas:

2019: 29 adoções formalizadas 

2020 : 30 adoções formalizadas 

2021: 45 adoções formalizadas 

2022: de janeiro a começo de maio, 11 adoções formalizadas

CRITÉRIOS

Segundo a promotora de Justiça de Infância e da Juventude de Campinas, Andrea Santos Souza, todas as pessoas habilitadas para adoção precisam preencher uma ficha de cadastro com questionário sobre o perfil e condições aceitas pelos futuros pais. 

"Os interessados preenchem um cadastro com uma série de perguntas questionando se aceitam diversas condições, desde raça, idade, sexo, se aceitam grupos de irmãos, se aceitam crianças com alguma necessidade especial, tanto física, mental. Então quanto maior o número de características escolhidas, é mais difícil e mais demorado o tempo de espera", explicou. 

Em Campinas, o número de pessoas aptas para adotar é seis vezes maior que o de crianças disponíveis para adoção. Mas segundo a promotora, a conta não fecha pela falta de "combinação" entre a criança e pais. 

Segundo ela, hoje em Campinas a maioria das crianças em abrigos da cidade são mais velhas, fora do perfil desejado por boa parte das pessoas habilitadas para adoção. 

"Em muitos casos temos a preferência por idade. Muitas vezes os pais querem mais recém-nascidos, ou de determinado sexo. A maioria dos cadastrados quer menina. Já a maioria das crianças disponíveis em Campinas têm mais de 10, 12 anos. Muitos são negros, são grupos de irmãos que não dá para separar. Também temos crianças com necessidade especial ou física, mas todas querem uma família", afirmou. 

A DEMORA

Adriana Campos Natali é uma das habilitadas na fila para adoção em Campinas, e está na espera há seis anos, desde que adotou o filho, hoje com 10 anos . Ela e o marido entraram no processo de adoção em 2011, e só conseguiram adotar o atual filho em 2016. Agora, ela está a espera para adotar o segundo filho. 

"A gente sabia que demorava, mas não esperava que fosse tanto. Estamos há seis anos na fila, desde que a gente assinou a primeira guarda provisória, demos entrada no processo. Nosso perfil é amplo, queremos uma criança mais velha, com idade próxima a 8 anos, o que já configura adoção tardia", contou.  

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Cadu com os pais, ainda enquanto estavam com a guarda provisória (Foto: Arquivo Pessoal) 

O "ENCONTRO"

Adriana conta que sempre pensou em adotar, mas o plano era de adoção após nascimento de filhos biológicos. Ela, no entanto, teve três gestações, em duas delas houve aborto espontâneo, e em outra a bebê nasceu prematura e não resistiu. 

"Engravidei a primeira vez e tive um aborto, eu morava em São Paulo, e após isso viemos para Campinas e já procuramos a Vara da Infância daqui. Entre a primeira e a segunda gestação já entramos na fila. Fizemos todo o processo, curso obrigatório, passamos a frequentar um grupo de apoio de pais e amigos de adoção, entregamos toda documentação, e ficamos esperando". 

A espera durou cinco anos, até o marido "encontrar" o filho atual enquanto fazia estágio em um centro de reabilitação de surdez. Carlos Eduardo Natali Abdala, ou "Cadú", como é chamado pelos pais, tem deficiência auditiva. 

"Meu marido estava cursando licenciatura em música na Unicamp e começou um estágio no Cepre, que é um centro de reabilitação de surdez. Um dia ele falou de um dos alunos dele, que estava lá e vivia em um abrigo desde pequeno. Ele disse que queria que eu considerasse ele como nosso futuro filho", contou, citando as inseguranças que vieram em conjunto. 

"O processo de estar na fila é como se fosse uma gestação. A primeira coisa que a gente quer é que venha com saúde. Ninguém quer que um filho tenha deficiência e na adoção não é diferente. Mas depois de tudo comecei a estudar, pesquisar e me envolver no assunto. A deficiência não estava no radar, não tínhamos colocado como 'não' mas nunca tínhamos pensado no assunto", contou.  

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BUSCA EM OUTRO ESTADO

A psicóloga Fernanda Bronzeado Mendes conta que ficou na fila da adoção por um ano e meio, porque tinha restringido a idade da criança a ser adotada em 6 anos. Depois que ampliou o perfil, conseguiu adotar não um, mas os três filhos desejados. No entanto, as crianças, que estavam com 8 e 4 anos, vieram do Rio de Janeiro. 

"É um processo burocrático, demora. A previsão que davam era de cinco anos para adoção de duas crianças de até 6 anos em Campinas", conta, citando que incluiu a condição de adoção de três, e as buscas eram feitas também em outros cinco estados. 

"Foi um pouco diferente, porque começamos a fazer a busca ativa, com crianças que não tinham pretendentes. Eles não estavam ainda destituídos da família, e nós iniciamos o processo ainda sem a conclusão, ainda arriscando, e o processo de destituição demora porque sempre visam o retorno da criança à família de origem, então envolveu muita insegurança", disse. 

Hoje com três filhos, ela conta que a adoção em conjunto foi um das melhores escolhas feitas. 

"As pessoas impõem muitas condições, delimitando em excesso o perfil, mas eu não imaginava que com 8 anos eles seriam ainda tão crianças. Precisavam muito de mim ainda. É importante se abrir as possibilidades, porque pode trazer muito. Hoje não me imagino não ser mãe de três".   

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Fernanda com os três filhos (Foto: Arquivo Pessoal)

COMO INICIAR O PROCESSO

A promotora da Vara de Infância e Juventude de Campinas explica que o processo para a adoção passa por habilitação e avaliação dos interessados. 

"A habilitação para adoção eu comparo com uma carteira de habilitação para dirigir, não se pode dirigir sem ter a habilitação e não se pode adotar sem estar habilitado. Então a pessoa começa se inscrevendo na Vara de Infância e Juventude da cidade de onde mora. E lá tem todo procedimento, um curso de formação e documentos para apresentar", explicou Andrea. 

Segundo ela, o curso para habilitação da adoção ficou mais demorado por causa da pandemia, mas já está sendo normalizado. 

"Depois disso já entra no cadastro, é raro negar, acontece, mas é difícil. E é nessa hora que a pessoa responde um formulário informando as características aceitas", indicou. 

Ela explicou que não há critério que impeça a adoção: podem adotar pessoas casadas, solteira, casais homoafetivos. A única condição é ter idade a partir dos 18 anos. Como recomendação, a promotora indica a participação em grupos para se familiarizar com o assunto. 

"Adoção é um ato de amor que extrapola o jurídico. Eu sugiro para quem está interessado em adotar participar de grupos de apoio de adoção, e confiar que fazemos o melhor para correr os processos. Os processos de adoção têm prioridade".  

O passo a passo para adoção pode ser conferido no site do Tribunal de Justiça (clique aqui).

BUSCAS E ESFORÇOS

Sobre a demora em muitos casos de adoção, a promotora afirmou que as buscas por pais são realizadas pela Vara da Infância constantemente, e diz qu há prioridade em agilizar os processos. 

"Ninguém tem interesse que as crianças fiquem em abrigos. O interesse é dar família, seja biológica seja a substituta, e tentamos não demorar para pedir a destituição se percebemos falta de interesse da família biológica. Cada dia a mais de chance para o pai ou mãe, é um dia a menos de chance para a criança", pontou. 

"A gente sofre com as crianças, nas visitas nos abrigos, com as perguntas de: 'cadê minha mãe?'. É dolorido, por isso os processos de adoção são prioridade". 

MAS NÃO É "MAR DE ROSAS"

Mesmo com avanços na conscientização sobre a adoção, o ato ainda é visto por muitos como "caridade", rótulo que precisa ser quebrado. 

"A ideia é dar um pai e mãe para uma criança que não tem família. A pessoa precisa estar disposta a isso. Não queremos resolver o problema da pessoa, mas o da criança, que a gente visita e pede uma mãe, pede um pai. Não buscamos filhos para as pessoas, estamos buscando pai e mãe para a criança que está em acolhimento", pontou a promotora. 

Adriana, que hoje tem o filho adotado e ainda aguarda na fila por mais uma criança, pontua que a romantização tem que ser quebrada. 

"Tem gente que acha que vai ser tudo lindo, maravilhoso. A realidade é outra. Não pode ser visto como caridade, que a gente esta fazendo bem para a criança, e não pode ser isso, se não a chance de se frustrar é muito grande. É um movimento egoísta, a gente quer ser pai, mas a criança não escolhe. Tem que ser por amor, pensar: 'eu tenho amor, e quero dar para um filho, independente de como vem, sem esperar em troca'. A relação de amor é construída", disse. 

"Para quem está começando tem que saber que é difícil, complicado, não é um mar de rosas, assim como ter filho biológico não é. Quando se tem filho biológico, os primeiros meses são de como se amamenta, exaustão, sem dormir, tudo isso, e quando se adota também é assim. A questão não é amamentar, mas tem outras demandas e é tão difícil quanto. A gente também fica perdido, sem dormir, tem um processo de adaptação difícil, e tem que enxergar a criança", acrescentou. 

HISTÓRIAS MUITAS VEZES DOLORIDAS

"É linda a história da família, mas a da criança nunca é linda, é sempre difícil, dolorida, envolve violência, abandono, abuso, tem muita ferida e por isso o processo é delicado, a gente não pode fazer de conta que a história não existe, as marcas estão lá, e também não pode colocar como centro da história da criança, porque o objetivo é que não seja mais esse", indicou Adriana. 

A psicóloga Fernanda, com os três filhos, indica que o processo também pode ser doloroso para pais, que muitas vezes vieram de sofrimentos anteriores até chegar ao ato de adoção. 

"É muito delicado, porque no meu caso tínhamos um plano, e é uma janelinha que fechou para abrir a da adoção. Envolve medo, insegurança dos dois lados. Brinco que primeiro é uma paquera entre os dois lados, e vai avançando, construindo a relação. Os primeiros meses são difíceis, eles tiveram grandes perdas e para criar vinculo demora, envolve trabalho com confiança, ter que afirmar esse amor, mas eu indico se abrir. As crianças querem ser amadas, elas estão muito dispostas a isso. Esse amor vai ser testado em atitudes, mas uma vez que isso é vencido compensa tudo".

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