
A expansão urbana de Campinas está mudando não apenas a paisagem ao redor da Mata de Santa Genebra, mas também os hábitos alimentares dos animais que vivem no local. Um estudo da Unicamp identificou que os macacos-prego-de-tufo-preto (Sapajus nigritus) passaram a consumir uma quantidade muito maior de espécies vegetais exóticas do que há cerca de 30 anos.
Entre 1988 e 1991, os primatas foram registrados consumindo 71 espécies de plantas, sendo quatro exóticas. Já entre 2019 e 2021, uma nova pesquisa encontrou 80 espécies vegetais na alimentação, das quais 23 eram exóticas, quase seis vezes mais do que no levantamento anterior.
A mudança acompanha as transformações no entorno da Mata de Santa Genebra, um fragmento de Mata Atlântica cercado por áreas urbanas e agrícolas em Campinas. A pesquisa foi realizada pelo doutorando João Victor de Amorim Verçosa e pela professora Eleonore Zulnara Freire Setz, ambos do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp. Os resultados foram publicados no International Journal of Primatology.
O que os macacos estão comendo?
Apesar da mudança, a maior parte da alimentação continua sendo formada por vegetais. No estudo mais recente, eles representaram 82,5% da dieta, enquanto pequenos animais, principalmente invertebrados, corresponderam a 18,5%.
Frutas com polpa foram o principal componente, representando 35,7% da alimentação. Também aparecem frutos com arilo, sementes, caules, flores e raízes. Entre as plantas nativas mais consumidas estão o ingá, o ipê-amarelo e a tabocuva.
Já entre as espécies exóticas aparecem acerola, amora e goiaba. Banana, manga, mamão e melancia também foram encontradas na alimentação dos animais, principalmente em áreas próximas às residências e ao parque.
O problema é que a dieta dos macacos não se limita às frutas. Durante as observações, os pesquisadores também registraram animais entrando em casas e levando pães, biscoitos, ração para cães e até macarrão instantâneo. Houve ainda registro de consumo de ovos de galinha.
Pesquisa acompanhou grupo de até 30 animais
Para entender esse comportamento, os pesquisadores acompanharam um grupo de aproximadamente 20 a 30 macacos-prego durante dois períodos entre 2019 e 2021.
Foram 437 horas de trabalho de campo, sendo mais de 213 horas de observação efetiva. Além de registrar o que os animais comiam, Verçosa analisou 123 amostras de fezes para identificar sementes ingeridas pelos macacos.
A análise encontrou 8.578 sementes nas amostras. Entre as mais frequentes estavam sementes de espécies exóticas como amora-preta e goiaba. Isso é importante porque os animais podem atuar como dispersores dessas plantas, transportando as sementes para diferentes pontos da floresta.
Frutas disponíveis o ano inteiro facilitam acesso
Para os pesquisadores, uma das explicações para o aumento das espécies exóticas na dieta está justamente na urbanização.
Enquanto muitas plantas nativas têm períodos específicos de floração e frutificação, árvores frutíferas cultivadas em jardins, quintais, parques e áreas urbanas podem oferecer alimento com maior regularidade.
Assim, os macacos encontram na cidade uma fonte previsível de comida. A pesquisa aponta que a disponibilidade, a previsibilidade e o valor energético desses recursos ajudam a explicar o consumo das plantas exóticas.
A própria paisagem ao redor da Mata de Santa Genebra mudou nas últimas décadas. O estudo científico destaca que o fragmento, com cerca de 252 hectares, está inserido entre áreas urbanas e agrícolas e sofreu diferentes alterações, como expansão residencial, incêndios e mudanças na vegetação.

Alimentar os macacos pode fazer mal
A proximidade com as pessoas também cria outro problema: a oferta direta de comida.
Segundo os pesquisadores, quando os moradores ou visitantes alimentam os macacos, os animais podem perder o medo dos seres humanos e passar a frequentar com mais intensidade as áreas urbanizadas em busca de alimento.
Esse comportamento aumenta a possibilidade de conflitos e também pode trazer consequências para a saúde dos primatas, principalmente quando eles consomem produtos industrializados que não fazem parte de sua alimentação natural.
Por isso, a recomendação é simples: não alimentar os macacos-prego.
Além de alterar o comportamento dos animais, a prática pode favorecer problemas dentários e aumentar o risco de transmissão de doenças entre humanos e primatas, segundo os pesquisadores.
Mudança também preocupa pela biodiversidade
O impacto não fica restrito aos próprios macacos. Ao comer frutas exóticas e eliminar suas sementes nas fezes, os primatas podem ajudar a espalhar essas plantas pela floresta.
Um dos exemplos citados pelos pesquisadores é a goiaba, considerada uma espécie invasora em determinados contextos e capaz de alterar a composição e a estrutura da vegetação, além das características do solo onde se estabelece.
A situação mostra como a presença de animais silvestres em áreas urbanizadas cria uma relação complexa. Os macacos conseguem se adaptar e encontrar novas fontes de alimento, mas essa adaptação também pode provocar alterações no ecossistema e aumentar os conflitos com moradores.
Macacos também ajudam a revelar mudanças na Mata de Santa Genebra
A comparação com o estudo realizado há cerca de 30 anos funciona como uma espécie de retrato das transformações ambientais de Campinas.
Na pesquisa antiga, os macacos consumiam principalmente milho cultivado nas áreas agrícolas próximas à mata. Com a mudança do uso do solo e a expansão urbana, essa fonte desapareceu e os primatas passaram a explorar outros recursos disponíveis no entorno.
Outro sinal das mudanças na região é a ausência de registros recentes de bugios relatada por moradores do entorno aos pesquisadores. Na década de 1980 e início dos anos 1990, esses animais também eram observados durante os estudos na Mata de Santa Genebra.