Professora da Unicamp estava em conferência invadida por militantes.
Divulgação/Antonio Scarpinetti/Unicamp
Professora da Unicamp estava em conferência invadida por militantes.


A historiadora Lucilene Reginaldo , professora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (IFHC) , publicou nesta sexta-feira (12) uma nota sobre o ataque cibernético ocorrido durante um seminário virtual, na última segunda (8), e explicou que o episódio não foi o único do tipo a ser registrado em reuniões acadêmicas on-line. No texto, Lucilene conta que os invasores tiveram atitudes de conotação racista , extremamente violentas e ofensivas, com referências ao presidente Jair Bolsonaro.

A professora também esclareceu que o motivo para ela não ter se pronunciado, até a divulgação da nota, não foi por estar abalada, como publicado equivocadamente em reportagem do Portal iG , na quarta-feira (10). Lucilene deixou claro que não queria expor o assunto para não dar visibilidade aos invasores, por entender que a divulgação é justamente o alimento desse tipo de militância virtual.

“Eu li sobre o incidente uma matéria que me aborreceu. Um jornalista me pediu uma entrevista, não concedi, simplesmente porque não queríamos dar visibilidade à ação dos marginais. Mas como a notícia – muitas vezes replicada – fez a absurda inferência de que eu estaria muito abalada, o que, espero, tenha soado estranho e até mesmo absurdo para os que me conhecem, resolvi aqui esclarecer as coisas”, diz o trecho final da nota.

“Entendo que está em curso uma nova estratégia da tal “guerra cultural”, eles estão perdendo as ruas, querem nos acuar nas redes. Então vamos cuidar da nossa segurança virtual enquanto prosseguimos com nossa balbúrdia acadêmica, porque, para variar, não temos trégua nem com a pandemia”, conclui.

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O ataque

No seminário virtual 'Atlântico Negro', alvo da invasão, Lucilene Reginaldo apresentava uma pesquisa sobre um liberto, que foi missionário e morreu no Reino do Congo, no final do século XVIII. Segundo o relato da historiadora, o evento começou com cerca de 50 pessoas, a maioria conhecidos do meio acadêmico. Minutos depois, o número subiu para 70 e, de repente, cada vez mais pessoas desconhecidas começaram a entrar.

“Pouco depois, começou a trolagem, interrompendo minha fala insistentemente com anúncios comerciais, pedidos insistentes do número do CPF para realizar compras numa loja, palavras que eu não entendia porque falavam ao mesmo tempo. As imagens e identificação dos participantes também denunciavam algo estranho: a mulher andando pela casa com o celular; uma figurinha de uma mulher negra de turbante; uma foto-montagem de um cão com a cabeça adornada com uma coroa de cabecinhas, identificado como Capivara Africana; a foto de uma mulher nua”, relata Lucilene.

Quando os membros do seminário concluíram que seria melhor suspender a reunião, após não conseguirem expulsar os invasores, a decisão foi celebrada pelos estranhos com gritos de ‘mito, mito, Bolsonaro’ . “Atitude fascista? Sim. Com conotação racista? Sim. Extremamente violenta e ofensiva? Sim”, denuncia a professora.

Recorrente

Esse tipo de invasão em reuniões acadêmicas é recorrente, e o que tem sido observado, segundo Lucilene, é que os ataques são direcionados a eventos com temas como racismo, violência policial e semelhantes.

“Penso que minha comunicação tratava de um assunto um pouco distante, inclusive cronologicamente falando. Mas talvez o folder com minha foto, o título do evento, as pessoas que o compartilharam nas redes sociais e, sobretudo, a porta entreaberta (o link do Google Meets foi compartilhado no Facebook e no Instagram),o que tem sido uma prática salutar de muitas universidade públicas, ONGS e movimentos sociais para ampliar a participação da sociedade em debates qualificados, atraiu a milícia virtual”, explicou a historiadora.

"Faço essa nota para agradecer todas as manifestações de apoio e, ao mesmo tempo, chamar atenção para o significado político deste ataque, que vai além da minha pessoa. Foi comigo, mas poderia ser qualquer um de nós", completou.

Mais casos

Um episódio parecido ocorreu na quinta-feira (11), durante uma palestra virtual do p rofessor Otávio Luiz Vieira , da UFPR, parte do  I Ciclo de Palestras Online do Vivarium/UFMT. O tema da pesquisa era a África medieval, e o evento contava com a participação do africanista José Rivair Macedo (UFRGS). Antes disso, ocorreram outras duas palestras, que não tiveram maiores problemas.

Segundo nota divulgada pelo Grupo de Trabalho em História Antiga (GTHA) da Associação Nacional de História (ANPUH), “um grupo de perfis que, após entrar na plataforma onde ocorria a videoconferência, começaram a escrever no bate-papo e gritar no áudio palavras como ‘Mito!’, ‘Bolsonaro mito!’ e ‘fora petistas!’ , até que um destes perfis projetou um site de conteúdo pornográfico na área para slides”.

Após a invasão, o evento foi interrompido e direcionado a uma sala virtual privada, de maneira que foi possível concluir a palestra.  O GTHA repudiou o episódio.

“Tudo leva a crer que o ataque ocorreu em função do tema e da presença dos especialistas em história da África, o que aponta para o conteúdo racista do ataque. Fatos semelhantes ocorreram recentemente em palestras online de africanistas, como a Prof. Dr. Lucilene Reginaldo (UNICAMP), e diversas videoconferências relacionadas ao racismo”, diz o texto publicado pelo grupo.

Outro caso foi relatado pelo Instituo Comunitário Grande Florianópolis (ICOM) , durante uma palestra on-line sobre práticas antiracistas, mediada por Mariana Assis, guardiã de relacionamento com a sociedade civil organizada do ICOM, e Lia Vainer Schucman, doutora em Psicologia Social pela USP.

"A plataforma Zoom, que utilizamos para o encontro que contava com cerca de 70 pessoas, foi invadida, e ocorreu a exibição de um vídeo com imagens violentas, propagando mensagem de ódio, apologia ao nazismo e atentado ao pudor. Racismo e a apologia ao nazismo são crimes", informa o ICOM em nota.

"Rapidamente, a equipe do ICOM conseguiu remover perfis envolvidos na ação e retomar o evento, que foi gravado. A invasão com propagação de mensagem criminosa será denunciada formalmente às autoridades responsáveis pela investigação destes casos, assim como à plataforma Zoom", completa.

Leia a íntegra da nota publicada por Lucilene Reginaldo:

Na noite de segunda-feira (08/06), um evento virtual promovido conjuntamente por dois grupos de pesquisa de duas universidades da Bahia sofreu uma invasão virtual. Eu estava lá, convidada pelo professor Carlos da Silva Jr. para apresentar minha pesquisa sobre um liberto, nascido em Mariana; formado em Cânones, em Coimbra; que foi missionário e morreu no Reino do Congo, no final do século XVIII. O evento começou com muita gente na sala virtual, talvez umas 50 pessoas, a maioria conhecida. Dez minutos depois, éramos cerca de 70. Em seguida, começou a entrar mais gente, pessoas desconhecidas e com comportamentos incomuns em eventos acadêmicos (andando pela casa com câmera do celular ligada, por exemplo). Pouco depois, começou a trolagem, interrompendo minha fala insistentemente com anúncios comerciais, pedidos insistentes do número do CPF para realizar compras numa loja, palavras que eu não entendia porque falavam ao mesmo tempo. As imagens e identificação dos participantes também denunciavam algo estranho: a mulher andando pela casa com o celular; uma figurinha de uma mulher negra de turbante; uma foto-montagem de um cão com a cabeça adornada com uma coroa de cabecinhas, identificado como Capivara Africana; a foto de uma mulher nua.  

Demorou para cair a ficha! Era uma invasão na nossa live. Suspendemos a reunião após inúmeras tentativas de retirar os estranhos do ambiente, que festejaram a decisão aos gritos de mito, mito, Bolsonaro. Atitude fascista? Sim. Com conotação racista? Sim. Extremamente violenta e ofensiva? Sim. Justifico as conclusões acima remetendo a um contexto maior. Não foi um episódio isolado. Nos últimos dias tem ocorrido várias ações semelhantes. O que há em comum entre os ataques: os eventos “escolhidos” pautam temas como racismo, violência policial e semelhantes. Penso que minha comunicação tratava de um assunto um pouco distante, inclusive cronologicamente falando. Mas talvez o folder com minha foto, o título do evento, as pessoas que o compartilharam nas redes sociais e, sobretudo, a porta entreaberta (o link do Google Meets foi compartilhado no Facebook e no Instagram),o que tem sido uma prática salutar de muitas universidade públicas, ONGS e movimentos sociais para ampliar a participação da sociedade em debates qualificados, atraiu a milícia virtual.      

Faço essa nota para agradecer todas as manifestações de apoio e, ao mesmo tempo, chamar atenção para o significado político deste ataque, que vai além da minha pessoa. Foi comigo, mas poderia ser qualquer um de nós.

Eu li sobre o incidente uma matéria que me aborreceu. Um jornalista me pediu uma entrevista, não concedi, simplesmente porque não queríamos dar visibilidade à ação dos marginais. Mas como a notícia – muitas vezes replicada – fez a absurda inferência de que eu estaria muito abalada, o que, espero, tenha soado estranho e até mesmo absurdo para os que me conhecem, resolvi aqui esclarecer as coisas. Entendo que está em curso uma nova estratégia da tal “guerra cultural”, eles estão perdendo as ruas, querem nos acuar nas redes. Então vamos cuidar da nossa segurança virtual enquanto prosseguimos com nossa balbúrdia acadêmica, porque, para variar, não temos trégua nem com a pandemia.

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