Militares durante higienização na Prefeitura de Campinas.
Carlos Bassan
Militares durante higienização na Prefeitura de Campinas.

Após mais de 15 dias na fase emergencial da quarentena decretada pelo Estado, Campinas ainda vive uma situação crítica da pandemia , apesar de os indicadores de Covid-19 indicarem uma leve melhora.

Nesta semana, a cidade chegou a bater recorde de mortes pela doença nos últimos dias - chegando a ter 60 óbitos registrados em um boletim epidemiológico da Prefeitura no dia 29 de março e 45 ontem (30). Os hospitais também continuam lotados (leia mais abaixo). 

No entanto, a Prefeitura informou ontem que há uma redução nos casos de pacientes com síndromes gripais que chegam às unidades básicas de saúde e também há uma estabilização, nos últimos cinco dias, no número de pacientes na fila de espera por internação em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e enfermarias. 

Além disso, a taxa de reprodução do vírus, que estava acima de 1, agora está em 0,98, ou seja, cada 100 infectados transmitem o vírus para 98 pessoas. Essa taxa já chegou a 1,2 em Campinas (em meados de fevereiro). Esses números indicariam uma leve melhora na situação epidemiológica da cidade, mas ainda é preciso ter atenção.

"São menos casos novos chegando. Mas ainda temos muitas mortes, porque são pessoas que se infectaram lá atrás. O importante é não ter infecção, porque não teremos internados em UTI e nem em enfermaria", afirmou a diretora do Devisa (Departamento de Vigilância Epidemiológica), Andrea von Zuben.

RESTRIÇÕES

Além da fase emergencial, a cidade está quase completando um mês de medidas restritivas aplicadas pelo município - incluindo a fase vermelha, que começou no dia 3 de março em Campinas. Até então, ela era a mais restritiva do Plano São Paulo e incluiu a suspensão de atendimentos presenciais em comércios e restaurantes, suspensão de aulas e até mesmo toque de recolher.

Nesse período, de acordo com a Prefeitura, entre os dias 28 de fevereiro a 6 de março, foram atendidas nas unidades básicas de saúde 11.706 pessoas com síndromes gripais. Como indicação do resultado das medidas, na atual semana, a 13ª, que ainda não se completou, foram atendidas 2.504 e projeções indicam que chegarão a 6.260 até 3 de abril.

"Isso mostra que o isolamento e uso de máscara surtem efeito", disse Andrea. Apesar disso, a ocupação dos hospitais públicos e privados ontem era de 96,81% e havia uma fila de espera de 181 pacientes que aguardavam leitos em enfermarias e UTIs (Unidades de Terapia Intensiva).

FASE EMERGENCIAL

A medida inédita e a mais restritiva do Plano São Paulo começou a valer em todo o estado no dia 15 de março. A tentativa é a de conter o avanço da covid-19, que tem feito a rede de saúde de várias cidades paulistas colapsar.

A princípio, a fase emergencial tinha previsão de acabar nesta quarta-feira (30), mas com a manutenção da pressão no sistema público de saúde, e aumento nos casos da doença, a medida foi prorrogada até o dia 11 de abril. Ontem, a Prefeitura também suspendeu o retorno das aulas presenciais também até o dia 11.

CENÁRIO

No dia 15 de março, quando a fase emergencial começou a valer, Campinas tinha 366 pacientes ocupando leitos na cidade, o que até então correspondia a ocupação geral de 95,06%. Nos leitos municipais e estaduais, já não havia vagas e a fila de espera era de 100 pacientes aguardando por leito.

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Ontem (30), no último boletim divulgado pela Saúde, havia 59 pessoas a mais internadas na cidade, também com mais leitos sendo disponibilizados (439). A ocupação total, incluindo hospitais públicos e privados, era de 96,81%.

Com 100% de ocupação em leitos municipais e estaduais, a lotação agora é vista também na rede particular, sendo que hoje há apenas 14 leitos disponíveis. No total, 181 pacientes estão à espera de leitos de enfermaria e de UTI hoje no SUS municipal.

BALANÇO

Dia 15/03 - 366 leitos ocupados
Dia 16/03 - 371 leitos ocupados
Dia 17/03 - 390 leitos ocupados
Dia 18/03 - 385 leitos ocupados
Dia 19/03 - 400 leitos ocupados
Dia 22/03 - 402 leitos ocupados
Dia 23/03 - 397 leitos ocupados
Dia 24/03 - 399 leitos ocupados
Dia 25/03 - 412 leitos ocupados
Dia 26/03 - 434 leitos ocupados
Dia 29/03 - 426 leitos ocupados 
Dia 30/03 - 425 leitos ocupados 

NO LIMITE

Em entrevista no último sábado (27), o presidente da Rede Mario Gatti, Sérgio Bisogni, disse que a última semana foi intensa e de "guerra". Segundo ele, mesmo com as aberturas de leitos e restrições em vigor, a cidade está no limite do número de novos leitos possíveis de abrir.

"A pressão essa semana (semana passada) foi muito complicada, foi uma pressão terrível. O mais preocupante é que estamos chegando no limite de abertura de leitos, razão pela qual houve endurecimentos. As restrições aumentaram nessa semana na tentativa de diminuir a expansão de infecções por covid. Nós estamos chegando no limite. Esse é o aviso que temos que dar", disse.

A mesma percepção é vista pelo infectologista Rogerio de Jesus Pedro. "A gente que está no serviço vê muitos casos e um impacto verdadeiro na evolução. Todos os serviços estão lotados, simplesmente. Só não temos pânico por ser algo bem organizado. Mas estamos no limite do limite", afirmou.

Para Rogério, a adesão às medidas mais duras ainda não foi vista inteiramente pelos moradores da cidade. "A população não está seguindo e não está entendendo a extensão das restrições. O impacto a gente sente na cidade, com ruas mais vazias, mas não foi um impacto grande como deveria ser. As restrições não foram atendidas, ainda estão tímidas, em banho-maria".


QUANDO OS RESULTADOS SERÃO VISTOS?

Para a infectologista Noelle Mioto, o período para os efeitos começarem a ser vistos ainda não começou.

"Os efeitos ainda não tiveram tempo suficiente para serem vistos, até porque normalmente é justamente o prazo de 15 dias para ter algum reflexo", disse ela. Miotto no entanto afirma que a sensação é que ainda falta adesão da população e medidas mais intensas por parte do poder público.

"Os efeitos são muito mais expressivos quando se adota um lockdown, como vimos em Araraquara, que os efeitos ainda vieram 1 mês depois, ou em cidades da Europa, com restrições ainda maiores do que vimos aqui. É preciso que as pessoas fiquem ainda mais em casa, temos índices de isolamento ainda não satisfatórios" disse.

Rogério também defende que ainda é cedo para resultados, mas afirma que a partir de agora, análises terão que ser feitas para estudar o impacto e a adesão das restrições

"O tempo ainda está curto, mas a partir de agora já temos o tempo de observação. O impacto sobre novos casos demora 15 dias ou mais, então podem começar a ser vistos agora", disse.

"Caso não haja o impacto evidente, deveríamos entrar em restrição mais forte e que faz mais sentido. As medidas têm que ser avaliadas para ver se são suficientes, e caso confirmem que não são, seria necessário radicalizar ainda mais, mesmo sendo uma questão difícil", finalizou.

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