Fotógrafo de Campinas apresenta São Paulo em coleção de livros da Louis Vuitton
Reprodução: ACidade ON
Fotógrafo de Campinas apresenta São Paulo em coleção de livros da Louis Vuitton


O campineiro Alexandre Furcolin Filho tinha 17 anos quando decidiu sair de casa e tentar a vida na capital. Na época, ele havia passado no vestibular de Administração na USP (Universidade de São Paulo) - área na qual ele trabalhou até os 26 anos. O gosto pela arte, no entanto, nutria desde pequeno.

Para Alexandre, trabalhar com o mercado financeiro não era um sacrífico, mas a liberdade que a arte oferecia o conquistou por completo. "Em Campinas eu não via a arte como uma oportunidade de trabalho. Eu já fotografava e pintava, mas eu não via muito essa possibilidade. Em São Paulo, trabalhei por oito anos no mercado financeiro, na bolsa de valores. Mas, paralelamente, eu já vinha publicando livros e trabalhava com arte", disse.

Em 2014, ele decidiu se dedicar inteiramente à carreira de artista. Seu jeito único e despojado de fotografar o levou ao mercado da moda, onde atende até hoje grandes marcas e fotografa para a revista Vogue. Ele sabia desde então que se inserir em um mercado completamente competitivo e cheio de talentos seria um dos tantos desafios que o mundo da arte o traria.

"Desde o começo eu sabia que o mercado financeiro não era para mim, apesar de eu gostar. Mas não sentia que esse era o meu cenário ideal. Na arte, eu sabia que seria difícil e que não seria meritocrático, como outros trabalhos em que você depende unicamente dos seus resultados. É uma área em que muitas coisas não estão sob seu controle e que se você depender delas você vai pirar".

FASHION EYE SÃO PAULO

Em 2019, Alexandre foi convidado pela Louis Vuitton uma das marcas de luxo mais renomadas do mundo - para integrar a coleção Fashion Eye, uma série composta por milhares livros. Cada exemplar revela um país, uma região, uma cidade ou um destino pelo olhar de um fotógrafo de moda.

"É uma coleção bem grande e bem famosa, são oito mil livros. Normalmente eles intercalam fotógrafos muito famosos e muito estabelecidos, com fotógrafos emergentes e que estão começando a ter o trabalho reconhecido", explicou Alexandre à reportagem do ACidade ON .

Nesse período, Alexandre já havia publicado livros e exposto seus trabalhos em grandes feiras de arte do Brasil e do mundo. "Eu publiquei um livro na França, em 2019, chamado Tangerina, com uma editora de lá. Então, o editor desse livro foi chamado para apresentar alguns trabalhos para a Louis Vuitton, e eles viram esse meu livro, sem ainda terem publicado algum livro sobre a América Latina. Meu editor me alertou para apresentar uma proposta para eles, porque eles queriam fazer um livro de São Paulo".

Sem perder tempo, Alexandre reuniu seus melhores trabalhos e apresentou à marca. "Em 2019 eu fui fazer o lançamento do Tangerina na segunda maior feira de fotografia da França, e eu já fui com uma pasta embaixo do braço, com as primeiras pinturas e fotos. Fui na 'raça' mesmo, e eles gostaram muito. Em uma semana fecharam o contrato", relembrou.

Entre cliques e colagens, Alexandre deu vida a um dos trabalhos mais importantes de sua carreira. O "Fashion Eye: São Paulo" levou cerca de dois anos para ser finalizado, e o resultado foi bem satisfatório, visto pelo artista no final deste mês de junho.

"Foi o maior livro que eu fiz em termos de números de páginas e em termos de complexidade, cromática e narrativa. Eu tinha ajuda do editor que trabalha comigo e tive ajuda da equipe de design interno da Louis Vuitton. E fizemos esse livro a várias mãos".

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OLHAR ESPIRITUOSO E DESOBEDIENTE

A Louis Vuitton diria que Alexandre trouxe um olhar espirituoso, desobediente e sensual de São Paulo. Já o artista considera que ele tenha trazido apenas um recorte da grande metrópole, por entender que as diversidades da capital não caberiam em um só livro.

"Desde o começo as questões de lugar de fala e do quão heterogênea é São Paulo me preocuparam muito. Me preocupou também o fato de que a minha experiência aqui é limitada pelos meus acessos, e o quanto aqui é uma cidade elitizada e super eclética", disse.

Na obra, Alexandre mesclou pontos turísticos, paisagens naturais, pessoas, moda, e ainda acentuou as diferenças encontradas na cidade por meio das cores e ferramentas multimídias.

"O livro tem uma overdose de cores, de linguagens, de lugares, de sensações, texturas e tipos de mídia, porque eu acho que São Paulo é uma cidade de constante transformação e multireferenciada. Há pessoas de todos os lugares do mundo, e a força da cidade está nas pessoas e nessa diversidade de culturas", destacou.

MULTIFACETADO

Apesar de apresentar São Paulo no livro, o artista acredita que a cidade tem muitas outras facetas. "Em uma entrevista que eu fiz eles me perguntaram se o meu livro é uma ode ao multiculturalismo. E é óbvio que não, porque eu só posso falar sob o meu ponto de vista, que é branco e classe média. Eu acesso muitas coisas, mas o acesso em São Paulo é limitado tanto para cima quanto para baixo. Tem um milhão de coisas de cima que eu não sou capaz de mostrar, porque eu não tenho dinheiro para isso, e tem um milhão de coisas da periferia que eu não tenho acesso".


EXPOSIÇÕES

O próximo passo de Alexandre é expor o livro, bem como as fotografias, colagens e pinturas nas quais ele é composto. "Quero fazer esse lançamento lá fora, ir atrás de transpor esse livro para exposição, e de pensar como essa transposição pode acontecer, já que são mídias totalmente diferentes".

No Brasil, o livro ainda não está disponível para venda on-line ou em lojas físicas. O lançamento oficial será feito quando a pandemia de covid-19 estiver controlada, informou o artista.

Enquanto isso, Alexandre segue se inspirando e inspirando pessoas na grande São Paulo e no mundo. Ele ainda espera pelo dia em que "instalará" um pouco da arte da metrópole em Campinas, sua cidade de origem.

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