Radar de alta precisão de Campinas
Foto: Pedro H. A. Lopes
Radar de alta precisão de Campinas


Campinas é conhecida nacionalmente como polo de ciência, tecnologia e inovação. O que muita gente não sabe é que a cidade também desempenha um papel importante na meteorologia brasileira. Há mais de quatro décadas, pesquisadores instalados na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) monitoram chuva, temperatura, umidade do ar, ventos e outros fenômenos que ajudam a entender o comportamento do clima em diferentes regiões do país.

A metrópole abriga um dos mais importantes centros de pesquisa meteorológica e climática do país: o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp. Criado em 1983, o órgão se tornou referência nacional, ajudando a transformar dados em informações estratégicas para diferentes setores da sociedade.

Radar de Campinas é capaz de detectar eventos climáticos extremos
Foto: Pedro H. A. Lopes
Radar de Campinas é capaz de detectar eventos climáticos extremos

Mais do que informar se vai chover ou fazer sol, o trabalho realizado em Campinas contribui para decisões que impactam a produção de alimentos, a prevenção de desastres naturais, o planejamento urbano e até políticas públicas em escala nacional.

Um trabalho que começou há mais de 40 anos

O Cepagri nasceu em um período de forte expansão da pesquisa agrícola brasileira. A proposta era desenvolver estudos sobre a relação entre clima, solo e produção agrícola, uma área conhecida como agrometeorologia. Desde então, pesquisadores passaram a analisar fenômenos como geadas, estiagens, excesso de chuvas e estresse hídrico em culturas importantes para a economia brasileira, como café, soja, feijão, cana-de-açúcar e seringueira.

Antena de 3,5 toneladas foi instalada em Campinas
Foto: Pedro H. A. Lopes
Antena de 3,5 toneladas foi instalada em Campinas

Ao longo das décadas, o centro ampliou sua atuação e passou a estudar não apenas o impacto do clima na agricultura, mas também questões relacionadas a mudanças climáticas, sensoriamento remoto, monitoramento ambiental e previsão meteorológica.

Hoje, o Cepagri é considerado uma das referências brasileiras na integração entre pesquisa científica e serviços prestados diretamente à população.

Como os dados são coletados?

A previsão do tempo não surge de forma instantânea. Ela depende de uma enorme quantidade de informações coletadas diariamente.

Tecnologia do Cepagri em Campinas
Conteúdo gerado por IA
Tecnologia do Cepagri em Campinas

Em Campinas, o Cepagri monitora variáveis como temperatura, umidade do ar, volume de chuva, velocidade do vento, radiação solar e imagens de satélite em tempo real. Esses dados são combinados com informações vindas de estações meteorológicas espalhadas pelo país e de sistemas nacionais e internacionais de observação da atmosfera.

Centro Regional de Meteorologia da RMC
Divulgação Cepagri
Centro Regional de Meteorologia da RMC

O acompanhamento contínuo permite identificar padrões meteorológicos, acompanhar a formação de frentes frias, ondas de calor, tempestades e períodos de seca, além de construir séries históricas fundamentais para entender como o clima está mudando ao longo do tempo.

Esse trabalho é especialmente importante em um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes no Brasil.

Campinas foi pioneira no uso de imagens de satélite

Uma das razões pelas quais o Cepagri ganhou destaque nacional foi sua atuação pioneira no uso de imagens de satélite.

Monitoramento da superfície terrestre no Cepagri
Divulgação Unicamp
Monitoramento da superfície terrestre no Cepagri

Ainda em 1985, o centro adquiriu um sistema de recepção e análise de imagens meteorológicas ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Na época, era uma tecnologia extremamente avançada para os padrões brasileiros e permitia acompanhar a evolução das condições atmosféricas praticamente em tempo real.

A iniciativa colocou Campinas entre os primeiros polos brasileiros a utilizar sensoriamento remoto para estudos climáticos e ambientais. O trabalho ajudou a consolidar uma linha de pesquisa que permanece ativa até hoje e que tornou o Cepagri uma referência nacional na área.

A contribuição do sistema para a agricultura brasileira

Uma das maiores contribuições de Campinas para a previsão climática nacional está ligada ao campo.

Desde a década de 1990, pesquisadores do Cepagri participam do Zoneamento Agrícola de Risco Climático, programa do governo federal que define quais regiões apresentam condições adequadas para o plantio de diferentes culturas e quais períodos oferecem menor risco para perdas causadas pelo clima.

Painel mostra imagens captadas pelo radar que passa a operar em espaço no Cepagri, da Unicamp
Divulgação Unicamp
Painel mostra imagens captadas pelo radar que passa a operar em espaço no Cepagri, da Unicamp

Essas informações influenciam diretamente o acesso de produtores rurais ao crédito agrícola e ao seguro rural, além de ajudar agricultores a tomar decisões mais seguras sobre plantio, irrigação e colheita.

Na prática, isso significa que estudos desenvolvidos em Campinas ajudam a reduzir prejuízos e aumentar a produtividade em diversas regiões do país.

O Agritempo

Outro marco importante ocorreu no início dos anos 2000. Em parceria com a Embrapa, o Cepagri participou da criação do Agritempo, um sistema nacional de monitoramento agrometeorológico que reúne dados climáticos de diferentes estados brasileiros. O projeto foi lançado em 2004 e posteriormente se tornou o sistema oficial de monitoramento agrometeorológico do Ministério da Agricultura.

Por meio da plataforma, agricultores, técnicos e gestores públicos podem acompanhar informações sobre chuva, temperatura, disponibilidade de água no solo e condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento de diversas culturas agrícolas.

As novas tecnologias do Cepagri permitem que o público tenha informações mais precisas
Divulgação Unicamp
As novas tecnologias do Cepagri permitem que o público tenha informações mais precisas

É mais um exemplo de como o conhecimento produzido em Campinas ultrapassa os limites da região e alcança todo o território nacional.

Apoio à Defesa Civil e prevenção de desastres

O trabalho do Cepagri também possui impacto direto na segurança da população.

O centro fornece diariamente informações utilizadas por órgãos públicos, incluindo a Defesa Civil, auxiliando no monitoramento de situações de risco relacionadas a chuvas intensas, tempestades, vendavais, estiagens e ondas de calor.

Radar auxilia a Defesa Civil na prevenção de eventos climáticos que coloquem vidas em risco
Foto: Divulgação/Governo de SP
Radar auxilia a Defesa Civil na prevenção de eventos climáticos que coloquem vidas em risco

Em uma época marcada pelo aumento da frequência de eventos extremos, a produção de dados confiáveis se tornou uma ferramenta essencial para reduzir impactos e planejar ações preventivas.

Além disso, pesquisadores do centro desenvolvem estudos sobre alagamentos, riscos ambientais e adaptação às mudanças climáticas, temas que ganham cada vez mais relevância para as cidades brasileiras.

Outras frentes meteorológicas que fortalecem Campinas

Embora o Cepagri seja o principal nome da meteorologia local, Campinas também se destaca pela presença de instituições ligadas à ciência atmosférica e ambiental.

A proximidade com o Inpe, em São José dos Campos (SP), e a forte produção científica da Unicamp criaram um ambiente favorável para pesquisas sobre clima, sensoriamento remoto, modelagem atmosférica e mudanças climáticas. Diversos laboratórios da universidade atuam na análise de dados ambientais e na formação de especialistas que hoje trabalham em centros de pesquisa, universidades e órgãos governamentais de todo o Brasil.

Nos últimos anos, o Cepagri também ampliou projetos voltados às mudanças climáticas, agricultura sustentável, inteligência artificial aplicada ao clima e monitoramento ambiental por satélite.

Por que isso importa para quem mora em Campinas?

Muitas pessoas conhecem o Cepagri apenas por consultar a previsão do tempo divulgada diariamente. No entanto, por trás desses números existe uma estrutura científica construída ao longo de mais de quatro décadas.

Site do Cepagri que informa a população
Divulgação Unicamp
Site do Cepagri que informa a população

O trabalho realizado em Campinas ajuda a compreender fenômenos climáticos que afetam milhões de brasileiros, produz conhecimento para o campo, apoia decisões governamentais e contribui para tornar previsões meteorológicas mais precisas.

Em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais evidentes, a cidade se consolidou como um dos principais centros brasileiros de produção de conhecimento sobre tempo e clima.

Por isso, quando a chuva chega antes do previsto, uma frente fria é anunciada com antecedência ou um produtor rural consegue evitar prejuízos por causa de informações meteorológicas confiáveis, há uma boa chance de que parte desse trabalho tenha começado em Campinas.

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