
Campinas é conhecida nacionalmente como polo de ciência, tecnologia e inovação. O que muita gente não sabe é que a cidade também desempenha um papel importante na meteorologia brasileira. Há mais de quatro décadas, pesquisadores instalados na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) monitoram chuva, temperatura, umidade do ar, ventos e outros fenômenos que ajudam a entender o comportamento do clima em diferentes regiões do país.
A metrópole abriga um dos mais importantes centros de pesquisa meteorológica e climática do país: o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp. Criado em 1983, o órgão se tornou referência nacional, ajudando a transformar dados em informações estratégicas para diferentes setores da sociedade.

Mais do que informar se vai chover ou fazer sol, o trabalho realizado em Campinas contribui para decisões que impactam a produção de alimentos, a prevenção de desastres naturais, o planejamento urbano e até políticas públicas em escala nacional.
Um trabalho que começou há mais de 40 anos
O Cepagri nasceu em um período de forte expansão da pesquisa agrícola brasileira. A proposta era desenvolver estudos sobre a relação entre clima, solo e produção agrícola, uma área conhecida como agrometeorologia. Desde então, pesquisadores passaram a analisar fenômenos como geadas, estiagens, excesso de chuvas e estresse hídrico em culturas importantes para a economia brasileira, como café, soja, feijão, cana-de-açúcar e seringueira.

Ao longo das décadas, o centro ampliou sua atuação e passou a estudar não apenas o impacto do clima na agricultura, mas também questões relacionadas a mudanças climáticas, sensoriamento remoto, monitoramento ambiental e previsão meteorológica.
Hoje, o Cepagri é considerado uma das referências brasileiras na integração entre pesquisa científica e serviços prestados diretamente à população.
Como os dados são coletados?
A previsão do tempo não surge de forma instantânea. Ela depende de uma enorme quantidade de informações coletadas diariamente.

Em Campinas, o Cepagri monitora variáveis como temperatura, umidade do ar, volume de chuva, velocidade do vento, radiação solar e imagens de satélite em tempo real. Esses dados são combinados com informações vindas de estações meteorológicas espalhadas pelo país e de sistemas nacionais e internacionais de observação da atmosfera.

O acompanhamento contínuo permite identificar padrões meteorológicos, acompanhar a formação de frentes frias, ondas de calor, tempestades e períodos de seca, além de construir séries históricas fundamentais para entender como o clima está mudando ao longo do tempo.
Esse trabalho é especialmente importante em um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes no Brasil.
Campinas foi pioneira no uso de imagens de satélite
Uma das razões pelas quais o Cepagri ganhou destaque nacional foi sua atuação pioneira no uso de imagens de satélite.

Ainda em 1985, o centro adquiriu um sistema de recepção e análise de imagens meteorológicas ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Na época, era uma tecnologia extremamente avançada para os padrões brasileiros e permitia acompanhar a evolução das condições atmosféricas praticamente em tempo real.
A iniciativa colocou Campinas entre os primeiros polos brasileiros a utilizar sensoriamento remoto para estudos climáticos e ambientais. O trabalho ajudou a consolidar uma linha de pesquisa que permanece ativa até hoje e que tornou o Cepagri uma referência nacional na área.
A contribuição do sistema para a agricultura brasileira
Uma das maiores contribuições de Campinas para a previsão climática nacional está ligada ao campo.
Desde a década de 1990, pesquisadores do Cepagri participam do Zoneamento Agrícola de Risco Climático, programa do governo federal que define quais regiões apresentam condições adequadas para o plantio de diferentes culturas e quais períodos oferecem menor risco para perdas causadas pelo clima.

Essas informações influenciam diretamente o acesso de produtores rurais ao crédito agrícola e ao seguro rural, além de ajudar agricultores a tomar decisões mais seguras sobre plantio, irrigação e colheita.
Na prática, isso significa que estudos desenvolvidos em Campinas ajudam a reduzir prejuízos e aumentar a produtividade em diversas regiões do país.
O Agritempo
Outro marco importante ocorreu no início dos anos 2000. Em parceria com a Embrapa, o Cepagri participou da criação do Agritempo, um sistema nacional de monitoramento agrometeorológico que reúne dados climáticos de diferentes estados brasileiros. O projeto foi lançado em 2004 e posteriormente se tornou o sistema oficial de monitoramento agrometeorológico do Ministério da Agricultura.
Por meio da plataforma, agricultores, técnicos e gestores públicos podem acompanhar informações sobre chuva, temperatura, disponibilidade de água no solo e condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento de diversas culturas agrícolas.

É mais um exemplo de como o conhecimento produzido em Campinas ultrapassa os limites da região e alcança todo o território nacional.
Apoio à Defesa Civil e prevenção de desastres
O trabalho do Cepagri também possui impacto direto na segurança da população.
O centro fornece diariamente informações utilizadas por órgãos públicos, incluindo a Defesa Civil, auxiliando no monitoramento de situações de risco relacionadas a chuvas intensas, tempestades, vendavais, estiagens e ondas de calor.

Em uma época marcada pelo aumento da frequência de eventos extremos, a produção de dados confiáveis se tornou uma ferramenta essencial para reduzir impactos e planejar ações preventivas.
Além disso, pesquisadores do centro desenvolvem estudos sobre alagamentos, riscos ambientais e adaptação às mudanças climáticas, temas que ganham cada vez mais relevância para as cidades brasileiras.
Outras frentes meteorológicas que fortalecem Campinas
Embora o Cepagri seja o principal nome da meteorologia local, Campinas também se destaca pela presença de instituições ligadas à ciência atmosférica e ambiental.
A proximidade com o Inpe, em São José dos Campos (SP), e a forte produção científica da Unicamp criaram um ambiente favorável para pesquisas sobre clima, sensoriamento remoto, modelagem atmosférica e mudanças climáticas. Diversos laboratórios da universidade atuam na análise de dados ambientais e na formação de especialistas que hoje trabalham em centros de pesquisa, universidades e órgãos governamentais de todo o Brasil.
Nos últimos anos, o Cepagri também ampliou projetos voltados às mudanças climáticas, agricultura sustentável, inteligência artificial aplicada ao clima e monitoramento ambiental por satélite.
Por que isso importa para quem mora em Campinas?
Muitas pessoas conhecem o Cepagri apenas por consultar a previsão do tempo divulgada diariamente. No entanto, por trás desses números existe uma estrutura científica construída ao longo de mais de quatro décadas.

O trabalho realizado em Campinas ajuda a compreender fenômenos climáticos que afetam milhões de brasileiros, produz conhecimento para o campo, apoia decisões governamentais e contribui para tornar previsões meteorológicas mais precisas.
Em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais evidentes, a cidade se consolidou como um dos principais centros brasileiros de produção de conhecimento sobre tempo e clima.
Por isso, quando a chuva chega antes do previsto, uma frente fria é anunciada com antecedência ou um produtor rural consegue evitar prejuízos por causa de informações meteorológicas confiáveis, há uma boa chance de que parte desse trabalho tenha começado em Campinas.